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Pedalando na Cordilheira Branca, Peru, Parte 2

A aclimatação Nossa preocupação era se aclimatar para as grandes altitudes da Cordilheira Branca, onde pelaríamos a mais de 4.000…

A aclimatação

Nossa preocupação era se aclimatar para as grandes altitudes da Cordilheira Branca, onde pelaríamos a mais de 4.000 m, altitude que nunca havíamos pedalado antes. A maior altitude até então havia sido ~3.500 m, na Piedra del Molino, em Salta (Argentina).

As questões de saúde (principalmente) e desempenho rondavam a minha cabeça. Não haveria risco de edema pulmonar ou cerebral, pois o tempo acima de 4.500 m seria de somente algumas horas. Os pontos de dormir eram sempre abaixo de 4.000 m.

Dividi a aclimatação em 3 dias. No primeiro pedalaríamos bastante até o Cañon del Pato. Seriam mais de 100 km, mas saindo de Huaraz, a 3.050 m, e chegando em Huallanca, a 1.840 m. O segundo dia pedalaríamos pela Cordilheira Negra, chegando a mais de 4.000 m. No terceiro dia, faríamos um trekking à Laguna Churup, a quase 4.500 m. Depois disso, era encarar os passos Punta Olímpica, Pupash e Portachuelo.

Primeiro dia de aclimatação – Pedal Cañon del Pato

De Huaraz a Huallanca, pelo Cañon del Pato

O desafio do dia era pedalar pela rodovia 3N, rumo norte, seguindo o Rio Santa, até o Cañon del Pato e finalizando o dia em Huallanca, onde tomaríamos alguma condução para voltar a Huaraz, o nosso ponto de saída e base. Seriam 110 km, em sua maior parte descida, mas com muitas subidinhas.

A rodovia 3N segue o Callejon de Huaylas, cruzando várias cidadezinhas e vilarejos da região. Ela é asfaltada, sem acostamento e bastante movimentada, principalmente por vans de passageiro. Isso faz o pedal ser bem estressante, pois os peruanos dirigem de maneira perigosa, em alta velocidade, fazendo ultrapassagens proibidas e buzinando o tempo todo. Aliás, se a buzina não estiver funcionando, imagino que um peruano não consiga dirigir. O pedal só foi ficar mais tranquilo depois de Caraz, onde os asfalto vira terra e o tráfico diminui bastante.

No sentido que fazíamos (sul-norte), a Cordilheira Branca estava do nosso lado direito, sempre majestosa e com seus picos nevados. O Huascarán é a grande estrela, com os seus 6.768 m.

Depois de cruzar vários pueblitos, chegamos à cidade de Carhuaz. Era domingo, dia de feira, com aquele clima bacana de mercado de rua andino. Tocamos rumo a Yungay, a próxima cidade.

Yungay ficou famosa por uma tragédia que aconteceu em 1970. Um terremoto de 7.9 na escala Richter atingiu a região da Cordilheira Branca e causou uma grande destruição em várias cidades. Yungay, que fica na base da Quebrada de Llanganuco, foi completamente soterrada por uma quantidade gigantesca de neve que se desprendeu do glaciar do Huascarán e desceu a quebrada de Llanganuco a velocidade superior a 250 km/h, trazendo lama, pedras e tudo o que encontrava no caminho. Quando chegou a Yungay, a cidade foi soterrada, matando 25.000 pessoas. Uma nova cidade foi reconstruída em outro local próximo e a área que era a antiga cidade foi transformada num memorial chamado Campo Santo. Esse link tem mais detalhes sobre o terremoto.

Depois de Yungay, chegamos a Caraz, onde paramos para almoçar. Caraz tem o apelido de “Dulzura”, pois tem tradição nos doces de leite e sorvetes. Claro que fomos provar. A cidade era a mais bonita e organizada das que passamos, com uma simpática pracinha e pessoas atenciosas.

Depois de Caraz, começa a descida em terra para o Cañon del Pato, a grande atração do dia. O cânion formado pelo Rio Santa é espetacular, onde as duas cordilheiras, Branca e Negra, quase se tocam, ficando a poucos metros uma da outra. Além disso, os penhascos das duas são íngremes, com muitos picos de 6.000 m em cada uma delas.

A estrada que cruza o cânion começou a ser construída (melhor seria, escavada na rocha da Cordilheira Negra) em 1952 e tem 35 túneis, além de cachoeiras e mirantes. Também foi construída uma usina hidroelétrica, que fica apertada entre os paredões das cordilheiras.

Depois do último túnel, aparece a pequena cidade de Huallanca, nosso destino final. Começa uma forte descida e depois chega-se a rua principal, que também é a continuação da estrada.

Depois de algumas informações desencontradas, descobrimos que teria um ônibus as 16:30 para Caraz. Era o tempo suficiente para comer algo e tomar uma cerveja.

Botamos as bikes no teto do ônibus e voltamos a Caraz pelo mesmo caminho. De Caraz, conseguimos uma van para Huaraz. Para levar as duas bikes, tivemos que pagar mais quatro passagens, pois era o espaço que elas ocupavam no banco traseiro que foi rebatido.

Resumo do dia

  • Distância pedalada: 113 km
  • Ascensão acumulada: 1.796 m
  • Ponto mais alto: 3.100 m

Segundo dia de aclimatação – Pedal Cordilheira Negra

O desafio do dia era pedalar pela Cordilheira Negra, saindo de Huaraz e chegando até os 4.000 m de altitude pela primeira vez. Era mais um dia de céu azul. Dizem que a melhor coisa da Cordilheira Negra é a vista da Cordilheira Branca. A ver.

Aclimatação dia 2 – Circuito Santo Toríbio, Cordilheira Negra

Tomamos café no hostel, fomos resolver algumas coisas da viagem e pegamos a estrada com as magrelas. Com isso, acabamos saindo mais tarde.

Pegamos a Avenina Raymondi, cruzamos o Rio Santa e tomamos a esquerda, pelo bairro de Los Olivos. A rua vai subindo sinuosamente, serpenteando sem parar até chegar à rodovia que liga Huaraz a Casma (rodovia 14). Ali pegamos a esquerda e continuamos subindo pela rodovia. Pedalaríamos por 24 km por asfalto até uma estrada de terra que sairia à direita.

A Rodovia 14 passa por casas e pequenas comunidades, com Huaraz ficando abaixo e a Cordilheira Branca sendo o fundo imponente com os seus picos nevados.

Paramos para fazer um lanche numa sombra, onde uma pastora cuidava de suas ovelhas. A altitude fazia o rendimento cair, a velocidade média era uns 8 km/h, mas nada de mal estar ou dor de cabeça.

Chegamos ao Km 24 e a estrada de terra que tomaríamos. A referência era uma antiga mina abandonada (Mina Huascar). Essa estrada de terra vai até a Mina Santo Toríbio, muito maior e ativa. Dali em diante o caminho se tornava bem mais atraente, uma estradinha de terra por comunidades rurais, com uma ligeira inclinação de subida. As estradinha começou boa, mas a medida que se afastava da rodovia, o caminho ficava mais estreito e irregular.

Cruzamos com outra pastora de ovelhas. Dessa vez ela tocava o seu rebanho por pastagens, com as montanhas nevadas de fundo. Só faltava uma música tradicional peruana para compor um quadro andino perfeito.

Já estávamos a 4.000 m de altitude e nenhum sintoma do soroche (o mal da altitude), só o rendimento bem mais baixo.

Depois de alguns quilômetros, avistamos a Mina Santo Toríbio, com os seus montes gigantes de dejetos de mineração. Dali em diante, a estrada começava a descer de maneira alucinante por 15 km até Huaraz. Além da diversão dos zigue-zagues, a atenção eram com os muitos cachorros soltos nas ruas. Eles são famosos por atacar os ciclistas. A solução que encontramos foi gritar mais alto com os cachorros para espantá-los.

Passamos pelo lixão de Huaraz, a paisagem triste do dia. Dezenas de pessoas, burricos e urubus remexiam o lixo em busca de algo de valor. Mais um pouco e estávamos novamente na ponte da Avenida Raymondi, voltando para o hostel.

Resumo do dia:

  • Distância pedalada: 50,10 km
  • Ascensão acumulada: 1.450 m
  • Ponto mais alto: 4.039 m

Terceiro dia de aclimatação – Trekking Laguna Churup

Terceiro dia aclimatação, hora de subir o sarrafo mais pouco. O objetivo era chegar próximo aos 4.500 m de altitude, fazendo um trekking até a Laguna Churup, na Cordilheira Branca. Seriam 7 km ao todo, mas não quaisquer 7 km!

Tomamos uma van até a localidade de Pitec. A viagem de van foi uma aventura a parte. É impressionante como os peruanos conseguem colocar mais pessoas nas vans quando parece que já está totalmente lotado. Todos os lugares sentados estavam tomados e, a cada parada, subiam mais cholas, muitas vezes com suas crianças, e se compactavam em algum lugar que antes não existia. E isso tudo com bom humor, com elas papeando em quechua.

Chegando em Pitec há uma portaria do PN Huascarán. É preciso comprar um boleto de entrada no parque.

A trilha começa por um caminho bem demarcado, com um terreno de pedras soltas. Levamos bastões de caminhada para facilitar a subida. Haviam alguns turistas, com guias locais e sem (dá para fazer sem guias).

O dia estava aberto e o visual do vale ao redor era muito bonito. Adiante no caminho é preciso subir alguns trechos bem inclinados, onde existem cordas e cabos para auxiliar. Eu estava bem cansado, o percurso de trekking forçava uma musculatura minha que não estava treinada.

Passamos por um local de camping, já a mais de 4.000 m, onde é possível dormir e dividir a caminhada em dois dias. Mais um trecho com cabos e chegamos na laguna.

O visual impressiona. Uma grande laguna de água azul turquesa, com o montanhas nevadas ao redor. Descansamos numa grande rocha, onde havia outros turistas e guias peruanos, com quem ficamos papeando e apreciando o lugar.

Comemos uns lanches e nos preparamos para voltar. Seria bem mais fácil, só descida até Pitec, onde haviam vans para Huaraz.

Depois que chegamos em Huaraz, resolvemos comer um verdadeiro ceviche peruano. Fomos num restaurante chamado Al Punto, perto do ponto final das vans. Recomendo. Comida boa, farta e barata.

A dor de cabeça finalmente me pegou. Apesar do esforço ser aparentemente menor nos 7 km, acho que a altitude deu o seu recado. Com essa dor de cabeça, fiquei preocupado com os dias seguintes de pedal acima dos 4.500 m.

Resumo do dia:

  • Distância caminhada: 7 km
  • Ascensão acumulada: 680 m
  • Ponto mais alto: 4.515 m

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

Sobre o que trata “Pedalando na Cordilheira Branca, Peru, Parte 2”?
A aclimatação Nossa preocupação era se aclimatar para as grandes altitudes da Cordilheira Branca, onde pelaríamos a mais de 4.000 m, altitude que nunca havíamos pedalado antes. A maior altitude até então havia sido ~3.500 m,…
O que a matéria explica sobre “Primeiro dia de aclimatação – Pedal Cañon del Pato”?
A seção “Primeiro dia de aclimatação – Pedal Cañon del Pato” organiza o contexto de Ciclismo & estilo de vida com fatos e implicações práticas destacados pela redação.
O que a matéria explica sobre “Segundo dia de aclimatação – Pedal Cordilheira Negra”?
A seção “Segundo dia de aclimatação – Pedal Cordilheira Negra” organiza o contexto de Ciclismo & estilo de vida com fatos e implicações práticas destacados pela redação.
O que a matéria explica sobre “Terceiro dia de aclimatação – Trekking Laguna Churup”?
A seção “Terceiro dia de aclimatação – Trekking Laguna Churup” organiza o contexto de Ciclismo & estilo de vida com fatos e implicações práticas destacados pela redação.
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Rafael Moraes

Rafael Moraes

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